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Este blog é um espaço de debate e partilha de opiniões. Não te esqueças que o sustento do Homem provém da lavoura. Lança a semente, cultiva-a, ela te saciará...

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20.05.09

CAÇADAS

Rui Luzes Cabral

Era Fatal que o empobrecimento do país (mais rápido do que previa a ingenuidade do cidadão distraído) provocasse uma ou outra forma de caça às bruxas das muitas que a cultura indígena costumam servir de primeiro alvo: porque usam o poder (que se imagina enorme) em seu próprio benefício e porque exploram e desprezam o povo. Os ricos (mesmo sem dinheiro) são o segundo alvo, sobretudo se andaram na política, porque se fizeram fatalmente à custa da probreza do próximo. E, em versões mais sofisticadas, também aparece, como terceiro alvo, o horrível empresário português, que vive da protecção e do favor do Estado, foge do risco e não cria verdadeira riqueza. Dantes também se perorava muito contra os funcionários públicos, que hoje, protegidos pelo número, gozam de uma certa imunidade.

 
A caça às bruxas parte necessariamente da ética, da responsabilidade e do altruísmo do acusador (sem essa presunção o exercício não era possível). E promete um castigo exemplar aos vários bandos de putativos celerados. Mas ninguém se preocupa em apanhar nenhum celerado em especial. A vida de cada português – pelo menos dos portugueses da classe média – avançou quase sempre por métodos que dispensam (e não toleram) escrutínio e a sociedade inteira assenta numa fraude colectiva e tácita, que por prudência e vontade de sobreviver não se discute. É, por isso, que se fala tanto em corrupção e não se prende ninguém por corrupção. A caça às bruxas não se destina, no fundo, a caçar bruxas com nome, cara e cadastro. Só por si, o alarido alivia a inveja e a consciência.
 
O “enriquecimento ilícito” ou, melhor o “enriquecimento que se suspeita ilícito” é o crime simbólico desta crise. Não vale a pena insistir no ónus da prova (que uma investigação aparentemente inverte) ou nos direitos básicos, que os justiceiros não se importam de pôr de parte. Nem vale a pena perguntar quantos casos de “enriquecimento ilícito” se calcula que existam e quanto tempo a um tribunal e a uma sentença (calculo que poucos). A retórica que por aí vai não passa de uma rejeição para consumo público da miséria que ficou à mostra e que, de resto, os portugueses nunca ignoraram que lá estava. Brandir o “enriquecimento ilícito” equivale a brandir uma virtude rara e uma promessa de salvação iminente. Não custa nada. E paga bem.
 
Vasco Pulido Valente, Público, 19 de Abril de 2009
07.04.09

"A corrupção e os portugueses"

Rui Luzes Cabral

Protestando que não está ainda condenado a nada (recorreu para a Relação), Domingos Névoa renunciou à presidência da Braval, uma empresa de tratamento de resíduos do distrito de Braga, para que tinha sido escolhido por unanimidade. Este acto de abnegação foi o resultado de um processo conjunto do Bloco, do PC, do PSD, do CDS e até (calculem) do PS, de algumas declarações de João Cravinho e de Manuel Alegre e do espanto geral da televisão e da imprensa. A moral da história não é, evidentemente, a reprovação instantânea e pública de Domingos Névoa. Muito pelo contrário. A moral da história é tranquilidade e boa consciência com que o aceitaram seis câmaras de Braga, como se a coisa não saísse de um costume velho e venerável, que a ninguém ocorreu por um momento pôr em causa.

E, se calhar, não sai. Houve sempre na cultura portuguesa a ideia de que política serve, e deve servir, para enriquecer. A corte de D. João VI roubava por direito e tradição. Depois da guerra civil, em 1834, os liberais roubaram a coroa e a igreja como quiseram. Os “cabralistas” roubaram tanto que mesmo na altura se achou um exagero. Na Regeneração e no “Rotativismo” toda a gente roubava disciplinadamente com método e com ordem. Durante a República, a rapidez com que mudavam os governos não permitiu que se roubasse muito (excepto um pequeno prédio ou um ou outro bocadinho de terra). E Salazar, se não roubou ele próprio (uma virtude por que incessantemente o louvaram), deixou roubar e eito a vassalagem do regime. Portugal nunca brilhou por uma grande honestidade cívica.

Pior do que isso, antes do “25 de Abril”, o povo nunca se importou: gostava imenso de Saldanha, o maior tratante, e recebia uma espórtula em espécie ou em favores pelo voto que ia dar a quem lhe mandavam. O “25 de Abril” só aparentemente mudou esta vida. A cidadania elege e reelege criaturas de que a polícia suspeita e que os tribunais puniram, como quem os recompensa por trabalhos de mérito. E, a começar por Sá Carneiro, nenhum chefe nacional ou local alguma vez se prejudicou por o acusarem de pecados veniais como corrupção ou ladroeira. O português parte do princípio que os políticos se “enchem” (os que são espertos, pelo menos). Não acredita na honestidade do Estado ou na eficácia da lei. Acredita no que recebe e no que lhe tiram; e não se importava de arranjar um lugar à mesa.

Vasco Pulido Valente, Público, 05 de Abril de 2009, página 36

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