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lavoura

Este blog é um espaço de debate e partilha de opiniões. Não te esqueças que o sustento do Homem provém da lavoura. Lança a semente, cultiva-a, ela te saciará...

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Já tenho saudades, um excelente artigo de Miguel Esteves Cardoso

Já tenho saudades

 

Cada vez mais se aproxima o tempo da felicidade vivida da saudade dela. Não só já tenho saudades de ontem, porque já passou, como começo a ter saudades das coisas enquanto estão a acontecer, por saber que vão acabar e ser capaz, sem querer, de pressentir as saudades que vou ter daqueles momentos, enquanto conseguir continuar a lembrar-me deles.

 

Mesmo na cozinha, quando a Maria João e eu estamos a lavar louça, rindo e namorando e discutindo, ocorre-me cruelmente, enquanto ainda lá estou, que será daquela ocasião, só aparentemente banal, que teremos saudades quando dermos, de repente, valor à deliciosa ilusão da banalidade quotidiana. Não é quotidiana. É rara. Um momento sem angústia, sem impossibilidade ou sem sacrifício (ou sem a dor não só de existir como a de estar cá, como corpo fi sicamente doloroso) parecesse cada vez mais com a alegria. É por esta razão que Schopenhauer é uma paixão da juventude. O prazer não é a ausência da dor. O prazer é um prazer que contém a tristeza e a dor de um dia acabar. A vida dói não porque acaba mas porque continua.

 

Ainda está a acontecer e já tenho saudades: as coisas e as saudades acontecem enquanto podem e ocupam o lugar da vida, da razão e do pensamento. Para não falar no sentimento que, ao contrário do que se espera e quer, impera sempre e prevalece. A tristeza está tão próxima da alegria como a vida vivida está da morte imaginada. Vivemos. Morremos. É pena que estes dois verbos estejam associados.

 

Miguel Esteves Cardoso

Jornal Público

02 de Fevereiro de 2014

Página 53