Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

lavoura

Este blog é um espaço de debate e partilha de opiniões. Não te esqueças que o sustento do Homem provém da lavoura. Lança a semente, cultiva-a, ela te saciará...

lavoura

Este blog é um espaço de debate e partilha de opiniões. Não te esqueças que o sustento do Homem provém da lavoura. Lança a semente, cultiva-a, ela te saciará...

A falência moral do capitalismo

1 Não fui marxista-leninista aos 18 anos nem maoísta aos 20, fui sempre, e monotonamente, qualquer coisa próxima da social-democracia — mas uma social-democracia a sério, como a que conheci nos países nórdicos nos anos oitenta. Também nunca fui liberal e nunca achei que “enriquecer é grandioso”, como o estatuiu, anos depois, o Partido Comunista Chinês. Tanta monotonia e brandura, atravessando agitados tempos de revolução e contra-revolução, ter-me-ia desde logo tornado irrecomendável para uma carreira política de futuro, se porventura alguma vez tal me tivesse tentado.  
 
Por conhecimento directo, enquanto jornalista, e por um mínimo de seriedade intelectual, jamais tive qualquer ilusão de que a colectivização da economia (só possível de estabelecer em regime ditatorial), pudesse trazer qualquer felicidade aos povos e bem-estar aos países. Em todos estes anos, e apesar de tudo o que se tem visto desde 2008 para cá, nunca achei sequer que a questão merecesse qualquer reflexão — a não ser do ponto de vista histórico, para tentar entender, ou ao menos para nunca esquecer, como é que foi possível que tamanha mistificação, às mãos da qual morreram dezenas de milhões de inocentes, pela fome ou pela repressão, foi possível ser caucionada por tantos, e alguns tão brilhantes, intelectuais. Assim, e sem quaisquer estados de alma, aceitei sempre o facto de que o único sistema que poderia garantir a prosperidade e a liberdade dos povos e das nações, era o da economia de mercado, fundada na livre iniciativa privada e no trabalho e assunção de riscos por conta própria e não na dependência ou para o Estado. Mas, porque também li Marx e aprendi com isso, nunca tive ilusões de que, como ele dizia, entregue a si próprio, o capitalismo devorar-se-ia e a tudo à roda. A função do Estado seria, então, a de evitar justamente que isso sucedesse, por duas vias: a regulação e vigilância do mercado e a justiça fiscal, para compensar e corrigir as desigualdades à nascença e proteger os pobres e os fracos contra a tentação do poder esmagador dos ricos e poderosos. Foi isso que vi nas sociais-democracias dos países nórdicos, e, até hoje, não vi nada que melhor pudesse garantir sociedades livres e justas.

A economia de mercado, o capitalismo, deu à Humanidade um século de prosperidade, de avanços científicos e tecnológicos e de justiça social jamais experimentada. Os desvios e abusos, que são uma fatalidade da natureza humana, eram corrigidos por um sindicalismo e uma imprensa livres, pelo papel de vigilante e redistribuidor de riqueza do Estado e, também pela existência de um código de honra nos negócios e de pudor no abuso do poder do dinheiro. Os fundamentos morais do capitalismo eram o facto de ele ser infinitamente mais produtivo e benéfico à economia do que qualquer outra alternativa, de ser regulado e vigiado e de exigir padrões de conduta em que o lucro não podia, jamais, ser o único fim. Creio ser historicamente justo situar nos anos de Ronald Reagan o início do desabar desse mundo e a entrada num outro mundo, tornado desregulado e vivendo em roda livre, onde a lei da selva e o lucro a qualquer preço passaram a imperar, sob o argumento da produtividade e da eficácia.

Se alguém ainda pudesse alimentar dúvidas, a crise nascida nos Estados Unidos em 2008, e rapidamente comunicada ao mundo inteiro, veio pôr a nu a falência económica deste caminho e as suas trágicas consequências. Milhões de homens perderam o seu emprego sem nada terem feito para tal, milhões de famílias foram remetidas para a miséria, milhares de empresas válidas foram exterminadas e os contribuintes foram espoliados como nunca para acorreram à banca e ao sistema financeiro, que tinham despoletado a crise com as suas práticas de pura pirataria. Acima de tudo, o que a crise revelou foi que a pirâmide que comandava o sistema assentava numa elite de bandidos internacionais, que se reúnem todos os anos em selectos fóruns onde combinam entre si a partilha do saque e cujas empresas lhes pagam fortunas pornográficas para apresentarem lucros, nem que sejam arrancados a sangue. Ou seja, que o sistema estava podre, abocanhado por gente sem qualquer sensibilidade social, sem qualquer preocupação de seriedade ou de ética nos negócios, movidos apenas por uma ambição sem limite nem vergonha.
 
A revelação do segredo de Polichinelo que é a existência de um país que, desde há pelo menos dez anos, não é mais do que um receptador de dinheiro roubado — o Luxemburgo — é só a última confirmação da podridão actual do grande capitalismo. Bem pode agora Jean-Claude Juncker garantir que vai trabalhar penitentemente para a harmonização fiscal na União Europeia. É como ter a raposa de guarda ao galinheiro: durante esses dez ou mais anos, ele foi primeiro-ministro desse país, acumulando até com o cargo de ministro das Finanças. Ou seja, e por mais que diga que nada sabia, como disseram os alemães depois da guerra, ele foi, se não o arquitecto, pelo menos o grande executor de uma fraude imensa que permitiu a 340 grandes multinacionais (entre as quais algumas que gostam de cultivar a imagem de terem preocupações sociais), roubar, descarada e vergonhosamente, os seus países e os respectivos contribuintes. Mas ele foi também, e em acumulação, presidente do Eurogrupo — onde se defenderam as políticas de austeridade que exigiram a países arruinados, como Portugal, que descesse os salários, que cortasse nos subsídios contra a miséria e que levasse o IRS até 53%, enquanto as multinacionais protegidas pelo Governo de Juncker pagavam no Luxemburgo 1%, 0,5% ou 0,25% de impostos. Mas que grande Europa, esta, que vai ser comandada por Juncker, onde a dívida não pode ser mutualizada nem em parte, onde as taxas de juro são baixas para os ricos e impossíveis para os pobres, e onde países da “União”, como o Luxemburgo, a Holanda ou a Irlanda, vivem em dumping fiscal, convidando as empresas dos outros a fingir que moram lá para não terem de pagar os impostos devidos nos seus países de origem! E que grande capitalismo este em que anualmente os governos gastam, entre incentivos financeiros e isenções fiscais, 550 biliões de euros a apoiar a indústria da gás e petróleo! Onde um banqueiro (por acaso, português e que eu não duvido que seja um excelente profissional) é premiado sumptuosamente e celebrado como um guru da gestão por ter salvo o Lloyds, à beira da falência, embora com o pequeno dano colateral de, para o conseguir, ter adoptado um plano de despedimento de 55.000 trabalhadores! Que grande capitalismo, este, em que quem mais despede, melhor gestor é, entre os seus pares!

2 A proximidade (!) de eleições, cega todos, mesmo os que tinham obrigação de, no mínimo, terem noção do ridículo. O ataque desenfreado lançado pela actual maioria a António Costa com um ano de avanço, tem conhecido episódios que ilustram bem o desespero em que navegam. Mas a questão inacreditável das taxas de um euro por dormida ou desembarque de turistas em Lisboa, ultrapassa tudo o que seria imaginável. De tal maneira que, enquanto defende no Parlamento o seu Orçamento do Estado, parece que tudo o que importa à maioria é discutir o orçamento municipal de Lisboa, para tentar fazer passar a ideia de que Costa (com a taxa de IMI mais baixa do país), é um amigo dos impostos. E isto, vindo de um Governo que rebentou com qualquer escala fiscal antes conhecida e que, entre outras coisas, subiu o IVA da restauração de 13 para 23% (e que assim o mantém, apesar da dor de alma presumida do ministro da Economia), ultrapassa o desaforo e atinge as raias da simples estupidez.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Jornal Expresso SEMANÁRIO 2194, 15 de novembro de 2014

1 comentário

Comentar post