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lavoura

Este blog é um espaço de debate e partilha de opiniões. Não te esqueças que o sustento do Homem provém da lavoura. Lança a semente, cultiva-a, ela te saciará...

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"O triunfo dos falhados" por Vasco Pulido Valente

Há em Portugal um pequeno grupo de indivíduos que Portugal quer desesperadamente ouvir sobre o futuro. Este grupo passa hoje a vida na televisão e nos jornais, com ou sem espaço próprio, e, fora disso, é fatal em qualquer conferência, encontro, simpósio ou debate que por aí se faça na universidade e nos partidos.


Quem são os génios que adquiriram um prestígio que vai do povinho iletrado da TVI, da RTP ou da SIC, às maiores sumidades do país? São, como seria de calcular, os ministros das Finanças que magistralmente nos levaram à bancarrota e à miséria. Não sei ou não percebo por que razão esse fracasso lhes deu uma autoridade para falar sobre o desastre a que presidiram. Mas que deu, com certeza que deu; e eles, assoprados pela sua importância, não se importam de o usar.


Tirando Cadilhe, que tem juízo, e Sousa Franco, que já morreu, a espécie não se poupa. Vítor Gaspar, Teixeira dos Santos, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Catroga, Cavaco (que não se demitiu do seu penacho de economista lá por ser primeiroministro e Presidente da República), nenhum deles pára. Acordamos com os conselhos da seita, adormecemos com as suas profundas profecias. O facto de quase sempre se enganarem e de sempre revelarem com emoção e tremor aquilo que é óbvio para toda a gente não os perturba, nem perturba o público que os venera e ouve. A felicidade da vida deles não se explica: entram com foguetes, “governam” no meio de uma contínua gritaria e saem (enquanto não entram em grandes lugares) para uma espécie de nuvem, donde arengam as massas e criticam com azedumeos predecessores.


Quem não inveja este extraordinário estatuto? Nem uma alminha lhes pede responsabilidades, nem um miserável inspector (e centenas trabalham para as Finanças, perseguindo o pequeno trafulha) recebe a melancólica incumbência de examinar o que eles fi zeram ou não fi zeram. O Parlamento, na sua incurável e perpétua desordem, não se interessa muito pelo passado. Os ministros, que espatifaram o nosso dinheiro ou consentiram que ele se espatifasse, podem por isso gozar, sem sequer uma estadia no purgatório, de uma doce existência, que a Pátria acha que eles merecem. O Presidente da República e o primeiro-ministro pretendem que “lá fora” nos levem a sério. Mas se “lá fora” alguém olhar com atenção para a lista dos nossos ministros das Finanças, conclui com certeza que este é um país burlesco.

 

Vasco Pulido Valente, Público, 23 Março 2014

"A sociedade de mercado" por Vasco Pulido Valente

Já leu o livro “O que o dinheiro não pode comprar” (não sei se está traduzido em português)? Se não leu, leia. O livro é de Michael J. Sandel, professor de Harvard e, segundo dizem, “o maior filósofo vivo”. A tese de Sandel é simples e coincide com o espírito do tempo: há valores que o mercado diminui ou perverte. Comecemos pelo caso mais simples. Se alguém compra um amigo, não fica em última análise com um amigo, porque a amizade não pode ser objecto de compra. Se alguém resolve seduzir um homem ou mulher com modelos de cartas que tirou da Internet (de resto, uma velha invenção), falhará no momento em que a burla se tornar pública. E o mesmo se aplica aos pais que “compram” os filhos com condescendência e com dinheiro; ou com os políticos que pedem votos com promessas falsas. O mercado deturpa ou anula a intenção e faz com que ela falhe.

 

Outros casos menos nítidos. Saltar a “bicha” ou a fi la, como hoje se diz, comprando bilhetes mais caros na candonga ou alugando à hora quem espere em lugar do próprio, enfraquece essencialmente o civismo de uma sociedade. O gosto por um cantor, imaginemos por Tony Carreira, não se deve medir pelos rendimentos de cada um. E o que não admira que se passe com Tony Carreira ou, por exemplo, com um jogo do Benfica, acaba por se tornar dramático se um dia se alargar às listas de espera da medicina privada ou da grande advocacia. Pior ainda: nada impede o incentivo, tão caro aos teóricos do mercado, de se introduzir em áreas até hoje intocáveis. Pagar a um adolescente 5 euros por livro que lê, não prejudica para toda a vida o prazer da leitura? Ou pagar a uma mulher para ter ou não ter filhos? Ou adquirir ao Estado, através da corrupção, privilégios que ninguém legalmente consegue?

 

Estes mercados, na verdade negros, talvez sejam eficientes no sentido económico da palavra, mas pouco a pouco eliminam qualquer senso moral no cidadão comum. Vender o nome não é melhor. Um benfiquista gostava que o Estádio da Luz se começasse a chamar Estádio da PT? Um lisboeta gostaria que a estação de metro do Chiado recebesse o nome de Samsung? E um portista que a Torre dos Clérigos se tornasse na Torre Volkswagen? E Portugal inteiro não se importaria se o governo começasse a vender o nome de escolas, monumentos, praças, ruas, mesmo uma cidade ou outra a marcas comerciais, como sucede na América? Sangel não é com certeza “o maior filósofo vivo”. Mas descreve a sociedade de mercado que se aproxima e que é, essa sim, um perfeito inferno.

 

Vasco Pulido Valente, Público, 22 Março 2014