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Este blog é um espaço de debate e partilha de opiniões. Não te esqueças que o sustento do Homem provém da lavoura. Lança a semente, cultiva-a, ela te saciará...

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MIGUEL RELVAS E A “JUVENTUDE DA MOBILIDADE”

 

“Nós investimos significativamente ao longo dos últimos 20 anos numa geração, apostamos nela, demos-lhes condições, preparamos-lhes para o futuro, demos-lhes os instrumentos e as ferramentas, para que, pudessem ser úteis à sociedade e, hoje não lhe demos aquilo que eles precisam, que é emprego. Preparamos, investimos na formação e na educação e, hoje não somos capazes, pela circunstância em que estamos, de lhes dar oportunidade de serem úteis à sociedade.

 

E essa mesma juventude, gente bem preparada, que hoje não vive com a expectativa, que foi isso que eu senti em Moçambique, não vi nenhum usar a palavra saudade, não vi. Também fiquei com a sensação que a pátria deles é o momento onde estão, a circunstância em que estão.

 

Esta juventude de hoje é uma juventude da mobilidade.”

 

Miguel Relvas, proferiu estas palavras a semana passada, pensando que elas seriam uma lufada de modernidade e verdade no discurso político português, tentando encontrar em tais afirmações justificativo para pacificar o ambiente pessimista que se vive. Mas o que originou, foi insistir no erro de fazer crer aos portugueses que sair de Portugal é uma das poucas alternativas para os nossos jovens e para os nossos desempregados. Mudem-se algumas políticas no país e na Europa que, decerto, existirão melhorias para as pessoas. O poder económico não pode mandar em tudo, inclusive na política…

 

1 - Se Miguel Relvas não fosse um destacado político, agora com a responsabilidade que o cargo de Ministro lhe confere, não me causaria incómodo de monta. Mas vindo deste senhor, braço direito de Pedro Passos Coelho, a coisa muda de figura, como diz a nossa gente. É que uma pessoa investida deste cargo governamental, não pode, ceder a esta análise comum e ligeira, empurrando para os outros aquilo que compete, em primeira instância, à classe política. Admitir que não temos esperança a dar aos nossos jovens é o primeiro passo para não acreditarmos no país. E um governante nunca deve deixar de o fazer, pois quando o exterioriza contamina todos os governados, fazendo com que eles sejam atingidos por um baixa de “rating” emocional e social para superarem as adversidades do presente com que se confrontam. Os políticos devem injectar confiança e esperança na sociedade e, devem fazer tudo por tudo para encontrarem as melhores soluções para a resolução dos problemas que vão surgindo.

 

2 - Este Governo está em funções à cerca de seis meses e, ainda não vimos sinais animadores que nos indicie que estão a superar a crise de valores que atravessamos. Quis-se em primeiro lugar fazer crer que Portugal, como Estado, falhou e, depois quis-se colocar todo o ónus desse falhanço numa única pessoa: José Sócrates. Ambas as análises estão erradas e, nada mais há de verdade na prova que assim não é, que nem Portugal é um Estado falhado, nem José Sócrates é o grande responsável pelo momento menos bom que atravessamos. Se este Governo fosse mais sério, não insistiria nesta receita obsoleta e trapaceira. Basta olhar para a Europa e para o mundo para se perceber que nem Portugal é um Estado falhado, nem Sócrates o seu coveiro. Vivemos, isso sim, diante de um momento colectivo difícil, que pode ser a fronteira para um novo mundo ou o retrocesso a um outro que já não interessa. Pelo menos parece que agora já existe crise internacional, coisa que na campanha passada não existia para os actuais governantes.

 

Precisávamos de mais. Precisávamos que as políticas deste Governo PSD/CDS não fossem as que estão à vista, continuando o país a navegar praticamente nas mesmas águas dos últimos anos. Ou talvez em águas mais turvas. E que navegação é essa? Nomeações partidárias descaradas; favorecimento de grandes grupos económicos; peso excessivo da banca nos meios de decisão política; contínua privatização de setores chave da economia; pouca aposta nos nossos meios produtivos; ausência de políticas concretas e revolucionárias para a nossa agricultura, floresta e pescas; falta de respostas para a sustentabilidade das PME’S; insistência no erro de resolver os problemas estruturais do défice com receitas extraordinárias e com a subida de impostos; excessiva proteção de diversas classes sociais e grupos de interesse bem enraizados na sociedade…

 

Se perante este amorfismo a solução é emigrar, deverá ser cada cidadão a reflectir e a decidir o que mais lhe convém. Agora, ser um Ministro a endereçar o convite e repetir o erro que já tinha sido cometido pelo Primeiro-Ministro e por um Secretário de Estado, até leva a pensar que além da estratégia do pastel de nata do Ministro Álvaro, esta de emigrar é a outra grande fórmula para o sucesso do país. Sinceramente…

 

3 – “hoje não lhe demos aquilo que eles precisam, que é emprego.” Pois não, é que muitos dos políticos andaram mais preocupados com os seus empregos futuros e com os empregos dos seus amigos e familiares que não tornaram as estruturas do Estado capazes de enfrentarem as exigências do século XXI. Claro que também têm existido boas políticas e uma parte significativa das pessoas que estão na política são sérias e generosas, no entanto, não têm sido suficientes para tornar o país menos injusto. Somos na Europa, um dos países em que a diferença entre ricos e pobres se acentua mais.

 

4 – “não vi nenhum usar a palavra saudade, não vi.” Não viu mas devia ter ouvido, porque nós somos do país da saudade, do país do fado. E independentemente disso, quem não se sente não é filho de boa gente, como diz o nosso ditado. Todo aquele que não sente saudade do seu país não faz parte dele. Isso é preocupante para o nosso futuro colectivo e deveria ser motivo de preocupação para Miguel Relvas e, não de orgulho, como pareceu ser.

 

5 – “a pátria deles é o momento onde estão, a circunstância em que estão.” O que é que quereria dizer Miguel Relvas com esta afirmação? Que Portugal não é uma Nação, é simplesmente um Estado? Um Estado que agora, até é mais Estado/Empresa, gerido pelo mercado e suas leis, emanadas, não do poder político mas de grupos económicos poderosíssimos que actuam sem serem escrutinados pela democracia do voto popular? Se assim é, ele tem razão. Mas então, má sorte a nossa, que depositamos nestes governantes esperança para zelarem pelo nosso destino colectivo. A nossa pátria deve ser só uma e isso não choca nada com o sítio do mundo onde possamos estar. Querer desenraizar as pessoas da sua história, da sua cultura, da sua língua e das suas crenças é um mau serviço que se presta. Um “político” destes não merece o lugar que ocupa.

 

Miguel Relvas talvez não saiba que Portugal não é só um Estado. Portugal é um dos mais antigos Estado/Nação e a Nação é o que nos une e foi sempre o que nos fez sermos grandes. Os descobrimentos fizeram-se pela pátria, para resolver os nossos problemas, nunca esquecendo quem somos, o que fomos e o que poderíamos ser. Entre outros autores e pensadores, aconselho Miguel Relvas a ler o padre António Vieira, Camões, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Eduardo Lourenço para entender Portugal e o quão errada é a sua análise e a sua ideia sobre o que precisamos para sermos maiores.

 

6 - “Esta juventude de hoje é uma juventude da mobilidade.” Pois é Sr. Ministro, deveríamos todos lutar para que o não fosse tanto e, deveríamos contar com os políticos para ajudar a mudar esta fatalidade. Não nos resignemos em demasia à mobilidade, pois isso, levado ao exagero, enfraquece os direitos das pessoas, torna-as frágeis no emprego, desenraíza-as da sociedade local, torna os laços familiares mais ténues e torna o mundo cada vez mais impessoal e mais violento. Em contrapartida, precisamos de mais humanismo, mais estabilidade, mais contacto pessoal, mais associativismo, mais sociedade…

 

A mobilidade trás impessoalidade, desconhecimento, precariedade e indiferença. E a política deveria trazer confiança, esperança, estabilidade e qualidade de vida. E não palavras como as que proferiu Miguel Relvas.

 

Rui Luzes Cabral

15 de Janeiro de 2012 – 01:42