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Este blog é um espaço de debate e partilha de opiniões. Não te esqueças que o sustento do Homem provém da lavoura. Lança a semente, cultiva-a, ela te saciará...

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QUEM E O QUE DEFENDE A NATO

A República Portuguesa encheu-se de vaidade por estes dias, por causa da Cimeira da NATO, em que dezenas de dirigentes e seus familiares vieram passear a Lisboa. Os familiares foram visitar a cidade e ver museus, os responsáveis pelos cargos políticos foram até ao Parque das Nações assinar algo que já estava discutido e aprovado. As cimeiras modernas não são para discutir nada, parece-me. São simplesmente para meia dúzia de discursos e encontrar-se “a malta” que dirige (ou pretende dirigir) o mundo. Para esse encontro gastam-se milhões e milhões em segurança, logística, assessorias, viagens, etc. Serve pelo menos para “girar” o comércio.

 

No caso desta organização (NATO), se pelo menos encerra-se em si mesma no que toca à missão pela qual existe, algo de extremamente necessário para o nosso planeta, ainda se compreenderia tanta excitação. O problema é que não lhe vejo vantagem alguma. Quando foi criada, a NATO tinha razão de ser, tal qual teve razão de ser a união de vários países, que “Aliados” venceram a Segunda Guerra Mundial. Nessa altura com a divisão do mundo em dois grandes blocos, marcadamente politizados e armados, prontos a dispararem ao mínimo desentendimento, ainda se compreendeu. Mas com o fim da União Soviética, com o fim do Muro de Berlim e com o fim do Pacto de Varsóvia a 31 de Março de 1991 (Aliança militar do leste Europeu, ou seja, a NATO dos comunistas) que sentido faz hoje em dia a NATO. Bem, se a entendermos como um clube de meia dúzia de países ricos (EUA, Canadá, Inglaterra, França, Alemanha e Itália), secundada pelos restantes 22 Estados, que ali estão por mera conveniência e, porque fica sempre bem a um pobre estar ou entrar em casa de um rico, então compreende-se. Mas isso é muito pouco e o pouco que é já não serve.

 

Não vejo qualquer vantagem na existência, hoje, da NATO, até porque a União Europeia (21 dos países membros da NATO pertencem à UE) deverá ser cada vez mais um bloco político, social, económico e militar unido, que fale a uma só voz e que não se disperse por aqui e por ali, conforme o gosto ou a conveniência. Que força militar tem a UE? E não tem porquê? Ficam as perguntas. Por outro lado, não vejo qualquer vantagem na existência, hoje, da NATO, porque com a existência da ONU, uma organização internacional que não tende a ser “um clube” restrito, é que deveria ser a grande organização por excelência, capaz de agregar, capaz de ser ainda mais respeitada, capaz de ser ajudada. Os capacetes azuis deveriam ser a Força Internacional que mais pudessem contribuir para a paz no mundo. É inconcebível nos dias de hoje, actuar-se em poucos dias, invadindo países como o Afeganistão e o Iraque e não o fazer em Estados Africanos que vivem em guerra há décadas para os quais ninguém olha. É inconcebível não se forçar de uma vez por todas uma resolução (no terreno) para o conflito entre Israel e a Palestina. É inconcebível haver 5 membros permanentes no Conselho de Segurança, como que intocáveis e sabedores da razão. A ONU conta actualmente com 192 Estados Membros, quase a totalidade dos Estados Soberanos do Mundo. Não seria a organização perfeita para pugnar pela segurança dos povos?

 

Uma ONU forte e mobilizadora contaria no seu exército com militares de todos esses 192 Estados. A União Europeia deveria possuir uma força militar própria e contribuir também com militares para os capacetes azuis. OS EUA já sabemos que em recursos de defesa estão bem equipados. A China é uma potência em crescendo. Outros países emergentes também poderiam dar um bom contributo. Com uma ONU forte, seriam precisas organizações como a NATO?

 

Pergunto eu novamente, para quê uma NATO, se poderíamos ter uma organização como a ONU, mais representativa dos povos e, porventura, mais respeitada. Não sou muito de ir para a rua manifestar-me, nem tampouco concordo muito com o “modus operandi” de algumas delas, mas que existem ali razões de protesto válidas e pertinentes, não tenho dúvidas.

 

Por isso, depois de uma Cimeira como a de Lisboa, em nada o meu orgulho Português cresceu. Tenho pena que andemos entretidos em reuniões balofas de conteúdo, mais preocupados em conservar o poder deste ou daquele, num clube restrito, em que agora até vai ter a colaboração da Rússia e, no fim de contas, só sirva para o benefício de poucos. Não nos esqueçamos que há milhões e milhões a morrerem à fome. Acabemos, pois, com estas excentricidades. Mas como a NATO, existem outras por aí. O G20 é talvez o expoente máximo do cinismo dominante que nos governa. Haja mais solidariedade, haja mais ONU.

 

E, para terminar, deixo só outra questão. Tantos governantes, tantos assessores, tantos políticos e fazedores de opinião e, poucas dessas vozes audíveis falam da questão: A NATO faz sentido no Século XXI?

 

Estarei eu a pensar numa barbaridade assim tão grande, sem sentido algum e desprovida de conteúdo? Haverá alguma clarividência nesta minha opinião?

 

Rui Luzes Cabral

22 de Novembro de 2010

01:04